Não sei se você já assistiu Titanic? Se tem a mesma idade que eu e é mulher, é capaz de ter visto mais de uma vez.
Tem uma cena onde Jack, o garoto sonhador, mas pobre, é convidado para jantar com os figurões no restaurante chique do navio.
Muito astuto e cativante ele solta a frase titulo deste texto: "A vida é um presente e eu não pretendo desperdiça-la". Essa fala comove a mesa e tira os figurões da sua zona de conforto, pelo menos naquele instante. É logico que depois Jack prova isso entregando sua vida por Rose e isso com certeza você já sabe.
O interessante é que venho me preparando a mais de 1 ano para voltar a escrever para o Blog da San, pois depois que meu pai faleceu, algumas coisas pareciam ter sido roubadas de mim, como essa sensibilidade (da qual me orgulhava) de ver as pequenas belezas deste presente que é a vida. Confesso que fiquei bem ranzinza e sobre minha cabeça pairou uma nuvem negra de duvidas, confusões, raiva e solidão.
Até que essa frase me atingiu hoje e lembrei que mesmo com a nuvem preta sobre minha cabeça, algumas coisas deste ano me atingiram como que uma vacina para este estado caótico, uma delas foi começar a correr.
Imagine eu como a menina gordinha e desengonçada que quase ficava de recuperação em Educação Física na escola porque não aguentava correr os 3 minutos da prova.
Comecei a me movimentar numa tentativa de gastar um quilinhos extras e desanuviar a mente um pouco, então eu voltava caminhando do trabalho para casa num percurso de 4 km.
Comentando com um amigo, que estava lutando contra uma crise brava de ansiedade, combinamos ir juntos ao Ibirapuera 3 vezes por semana e uma vez nos arriscamos a correr 1km. Sai de lá me achando sensacional mesmo sem derramar uma gota de suor, rs, e insisti em tentar superar essa marca. Outros amigos corredores riam de mim pelos orgulhosos 1000m (miiiillll metros gente!!), mas me incentivavam a prosseguir.
Eu, que preguiçosa, sempre me considerei uma pessoa que rendia melhor a noite e por isso me recusava a acordar cedo, passei a ter saudade da corrida o que me despertava alegre as 6:30h e ir perseguir romper meu recorde.
Uma tarde de sábado quando cheguei no km 2,5, senti dor e me entreguei, comecei a andar. Imediatamente, senti um tapinha nas costas e uma voz amiga me disse "vamos até os 5km". Por acaso encontrei com um colega de trabalho que já tem uma historia de km acumulados e a voz da experiencia me motivou. Incrivelmente completei 5,13km e todos os dias passei a olhar aquele record no aplicativo com um carinho tao grande que percebi que era uma carinho por mim mesma.
Parece bobagem, mas foi a primeira vez que fiz algo só por mim em minha vida. Éramos eu e eu me desafiando e superando.
E prossegui, comecei a olhar o parque com outros olhos e a medida que eu conquistava mais metros o parque parecia menor, a pista parecia menos amedrontadora e o céu mais azul.
Este domingo fui com meus filhos ao parque e Lucca falou "deixe o papai com a Zhara e vamos correr, é assim que você corre?" E saiu na minha frente gingando com muito mais graça que eu e sim, eu vi o céu mais azul, a nuvem preta havia se dissipado e pude ver Papai e papai acenando de la para mim com um caloroso "yes" me lembrando que a vida é um presente e não vou desperdiça-la.
Camila Santos